Mulheres desafiam a escravidão

A exposição “Senhora Liberdade: mulheres desafiam a escravidão”, uma parceria entre o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e o Center for Latin American Studies da Universidade de Pittsburgh, conta a história das lutas de mulheres escravizadas pela liberdade no Brasil do século XIX por meio de ações de liberdade, registros de alforria, cartas de emancipação e fotografias.

A exposição propõe múltiplas camadas de reflexão: a das mulheres escravizadas e suas estratégias de luta pela liberdade; a das historiadoras convidadas, que analisam essas trajetórias no contexto do Brasil oitocentista; e a das servidoras do Arquivo Nacional, que compartilham depoimentos e percepções sobre essas histórias.

Agora é a sua vez de conhecer o projeto, refletir sobre o passado escravista brasileiro e se engajar com as memórias da escravidão no Brasil.

Dez mulheres. Dez histórias.

Clique em um nome e conheça cada história.

Liberata

1813

Liberata nasceu no Brasil por volta de 1780. Desde muito nova, era assediada por seu pretenso senhor, que lhe prometia liberdade sem cumprir a promessa.

Catarina

1836

Em 1836, Catarina Maria vivia livre havia mais de onze anos quando a perda de sua carta de alforria abriu caminho para uma nova tentativa de escravizá-la.

Eduvirges e Anna

1843

Depois da morte dos antigos senhores de sua mãe, Eduvirges e Anna foram incluídas como escravas em um inventário e iniciaram uma ação de liberdade.

Cristina

1837

Em 1837, o documento preservado sob o nome de Cristina remete a uma experiência atravessada pela disputa entre a violência do cativeiro e a busca por reconhecimento diante da Justiça.

Bonifácia

1872

Em 1872, o manuscrito associado a Bonifácia conserva o rastro de uma mulher cuja trajetória se inscreve nas muitas formas de resistência à escravidão.

Marcolina

1824

Em 1824, o processo manuscrito ligado a Marcolina revela a persistência necessária para fazer da própria experiência uma questão reconhecida nos tribunais.

Eva e Maria

1803

Em 1803, o registro de Eva e Maria traz duas vidas para o centro de uma história em que laços familiares e liberdade podiam ser disputados nos espaços oficiais.

Adriana

1803

Em 1803, o documento ligado a Adriana permite entrever uma história de enfrentamento em que a busca por liberdade exigiu transformar a própria vida em prova.

Hermínia

1888

Em 1888, o processo de Hermínia preserva fragmentos de uma trajetória que desafia o apagamento imposto pela escravidão.

Claudina

1888

Em 1888, o documento de Claudina guarda a memória de uma luta que, como tantas outras, precisou atravessar os limites impostos pelo cativeiro e pela Justiça.

Registros de Liberdade

A sociedade escravista brasileira gerou uma vasta documentação que evidencia as experiências das mulheres submetidas ao cativeiro. A seção a seguir revela a complexidade das condições por elas vivenciadas, bem como as múltiplas formas de resistência que marcaram suas trajetórias.

Alvará de Liberdade

Cartas de liberdade de escravizadas povoam os livros de ofícios de notas do Rio de Janeiro. O que hoje nos assombra era rotina nos cartórios, fosse a carta de liberdade “da escrava Laudicena, preta crioula solteira de trinta anos de idade” ou o alvará de liberdade em favor “da preta Rita Maria da Conceição”.

A história por trás
de cada foto

Mulheres africanas ou afrodescendentes têm no retrato uma face visível, destacando-se a carte-de- visite, formato popular dos estúdios. Eram fotografias que atendiam à curiosidade estrangeira, ao interesse dito científico, aos álbuns da classe senhorial e, também, à causa da liberdade. No acervo da instituição, os poucos retratos de mulheres negras do século XIX são expressivos para a história da fotografia em arquivos públicos e tornam essas mulheres e seus retratos ainda mais significativos em sua singularidade poética.

Claudia Beatriz Heynemann

Glicéria

O retrato de Glicéria da Conceição Ferreira, liberta, evidencia uma autonomia na produção da sua autoimagem.

Benvinda

A cena montada sugere intimidade e afeto, mas o corpo tenso de Benvinda revela a violência que sustenta a imagem.

Duas mulheres

As duas mulheres se autorrepresentaram com roupas, penteados e adornos que afirmam respeitabilidade e liberdade.

Romana

A trajetória de Romana da Conceição atravessa a diáspora negra entre o Brasil e a Nigéria.

Cartas de emancipação

As cartas de emancipação de africanas livres que sobreviveram ao tempo são registros de histórias tristes. Elas foram emitidas pela Comissão Mista Anglo-Brasileira ou por juizados de órfãos quando as pessoas encontradas a bordo dos navios negreiros apreendidos foram formalmente emancipadas. Cada pessoa é identificada com um nome cristão (desconsiderando o anterior), a nação, as marcas do corpo e eventualmente uma descrição física. As africanas livres Romana Benguela, Agatha Unane e as demais faleceram prematuramente. Suas cartas estão aqui expostas porque foram devolvidas ao Ministério da Justiça, foram arquivadas e assim chegaram até nós.

Beatriz Mamigonian

Brigues

Navios escravagistas Asseiceira e Camargo

A bordo de navios, como o Asseiceira e o Camargo, vieram para o Brasil centenas de pessoas africanas ilegalmente escravizadas, incluindo muitas mulheres. Em 1839, o Asseiceira foi apreendido pelas autoridades, perseguido pela Marinha brasileira. Já o Camargo foi incendiado e naufragou em 1852.

Mesmo que, tecnicamente, as mulheres africanas nomeadas nestas listas fossem livres, as listas com seus nomes e as marcas corporais mostram várias dimensões da complexidade e crueldade do sistema escravista.

Das mulheres do Camargo às mulheres do Quilombo do Bracuí

Conversas inacabadas

Em outubro de 2025, foram feitas duas rodas de conversa para apresentar as histórias das ações de liberdade às servidoras do Arquivo Nacional. Assista às reflexões de colaboradoras do projeto e servidoras do Arquivo Nacional sobre as trajetórias das mulheres retratadas na exposição. São relatos de mulheres do presente aprendendo com as mulheres do passado.