Liberata
1813
Liberata nasceu no Brasil por volta de 1780. Desde muito nova, era assediada por seu pretenso senhor, que lhe prometia liberdade sem cumprir a promessa.
Mulheres desafiam a escravidão
A exposição “Senhora Liberdade: mulheres desafiam a escravidão”, uma parceria entre o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e o Center for Latin American Studies da Universidade de Pittsburgh, conta a história das lutas de mulheres escravizadas pela liberdade no Brasil do século XIX por meio de ações de liberdade, registros de alforria, cartas de emancipação e fotografias.
A exposição propõe múltiplas camadas de reflexão: a das mulheres escravizadas e suas estratégias de luta pela liberdade; a das historiadoras convidadas, que analisam essas trajetórias no contexto do Brasil oitocentista; e a das servidoras do Arquivo Nacional, que compartilham depoimentos e percepções sobre essas histórias.
Agora é a sua vez de conhecer o projeto, refletir sobre o passado escravista brasileiro e se engajar com as memórias da escravidão no Brasil.
Nos documentos da história do Brasil há vozes que insistem em ser ouvidas — mesmo quando o silêncio parecia imposto. Esta exposição é dedicada às vozes de mulheres negras que encontraram no século XIX um espaço, por vezes estreito e cheio de obstáculos, para reivindicar a liberdade que sempre lhes pertenceu.
No Arquivo Nacional, guardamos muito mais do que documentos. Preservamos memórias, lutas, caminhos. Ao abrir as caixas da história, nos deparamos com petições escritas com esperança, com decisões judiciais que, às vezes, contrariam a lógica da época, e com trajetórias de coragem diante de um sistema profundamente injusto.
Convidamos os visitantes a conhecer mulheres que ousaram enfrentar a escravidão. Elas não apenas desafiaram o regime escravocrata — deixaram marcas na história do direito, da cidadania e da luta por justiça no Brasil.
Ao trazer essas histórias, todas baseadas em documentos lotados no Arquivo Nacional, reafirmamos nosso compromisso com a valorização das lutas por justiça e a defesa dos direitos fundamentais. Que cada visitante reconheça não só o passado, mas a força de mulheres negras que transformaram sua condição de oprimidas em ato de afirmação e resistência.
Monica Lima, Diretora-geral do Arquivo Nacional
Liberdade, substantivo feminino. Liberdade, que o sonho humano alimenta. Liberdade, como escreveu uma poetisa branca nos anos 1950, não há quem explique e não há quem não entenda. Disso sempre souberam as mulheres negras do tempo da escravidão.
Esta exposição conta as histórias de dez dessas mulheres extraordinárias. Elas desafiaram a escravidão processando seus supostos senhores. São mães e filhas, crianças e avós que conseguiram levar suas demandas até os tribunais. Algumas venceram, a maioria não. São histórias de sofrimento e injustiça, mas sobretudo de coragem. A estas, somam-se as trajetórias de tantas outras mulheres: africanas, brasileiras; amas de leite, trabalhadoras ao ganho; cada qual a seu jeito, todas resistiram.
Historiadoras e servidoras do Arquivo foram convidadas a refletir sobre essas trajetórias. Somos mulheres do presente aprendendo com as mulheres do passado. Que elas nos inspirem a encarar as lutas do nosso tempo. Que elas nos estimulem a perseverar. Que elas nos lembrem que a voz da liberdade deve ser também a voz da igualdade. E que ambas, finalmente, abram suas asas sobre nós.
Keila Grinberg, curadora
Clique em um nome e conheça cada história.
1813
Liberata nasceu no Brasil por volta de 1780. Desde muito nova, era assediada por seu pretenso senhor, que lhe prometia liberdade sem cumprir a promessa.
1836
Em 1836, Catarina Maria vivia livre havia mais de onze anos quando a perda de sua carta de alforria abriu caminho para uma nova tentativa de escravizá-la.
1843
Depois da morte dos antigos senhores de sua mãe, Eduvirges e Anna foram incluídas como escravas em um inventário e iniciaram uma ação de liberdade.
1837
Em 1837, o documento preservado sob o nome de Cristina remete a uma experiência atravessada pela disputa entre a violência do cativeiro e a busca por reconhecimento diante da Justiça.
1872
Em 1872, o manuscrito associado a Bonifácia conserva o rastro de uma mulher cuja trajetória se inscreve nas muitas formas de resistência à escravidão.
1824
Em 1824, o processo manuscrito ligado a Marcolina revela a persistência necessária para fazer da própria experiência uma questão reconhecida nos tribunais.
1803
Em 1803, o registro de Eva e Maria traz duas vidas para o centro de uma história em que laços familiares e liberdade podiam ser disputados nos espaços oficiais.
1803
Em 1803, o documento ligado a Adriana permite entrever uma história de enfrentamento em que a busca por liberdade exigiu transformar a própria vida em prova.
1888
Em 1888, o processo de Hermínia preserva fragmentos de uma trajetória que desafia o apagamento imposto pela escravidão.
1888
Em 1888, o documento de Claudina guarda a memória de uma luta que, como tantas outras, precisou atravessar os limites impostos pelo cativeiro e pela Justiça.
1813
1813
Liberata nasceu no Brasil por volta de 1780. Desde muito nova, era assediada por seu pretenso senhor. Vieira a violentava e prometia que lhe daria sua liberdade; mesmo depois de ter dois filhos, ele nunca cumpriu a promessa.
Anos depois, Liberata envolveu-se com José, que a ofereceu casamento e compra da alforria. Vieira não permitiu uma coisa, nem outra. Foi então que Liberata resolveu dar início a uma ação de liberdade.
Vieira acabou prometendo liberdade caso Liberata desistisse da luta judicial. Em 1814, ao se ver livre, Liberata casou-se e teve mais dois filhos, José e Joaquina. Impossibilitada de criá-los, Liberata deixou as crianças com o major Antonio Luís de Andrade, para que os criasse e ensinasse o ofício de alfaiate a José. Mas as crianças tiveram outra sina: ao morrer o major, sua viúva tentou vendê-las como escravas. José e Joaquina agiram como a mãe: procuraram a Justiça e alegaram serem livres de nascença. Em 1835, os dois conseguiram a alforria.
Assista ao comentário sobre a história de Liberata.
“Diz Liberata, mulher parda cativa de José Vieira Rebello, morador na Enseada das Garoupas, que ela Suplicante como pessoa miserável e desamparada, sem ter quem dela se compadecesse, (...) implora de joelhos (...) para que (...) possa em seu nome fazer saber a Alta Justiça os tormentos de seu cativeiro, as sevícias que de dia em dia sofre sem respirar, sem poder conseguir os meios de se queixar por seu curador, por se achar como em um cárcere privado, vigiada, não pode conseguir os meios de ser ouvida, porque sendo a suplicante comprada pelo dito seu senhor, na Vila de Paranaguá, sendo a suplicante menor de 10 anos, e chegando à casa do dito seu senhor sendo por diferentes ocasiões perseguida, e atacada do mesmo, procurando mandá-la aos matos por lugares remotos e despovoados tudo a fim de solicitar já com violência e promessas (...) de sua liberdade, finalmente levou sua honra”.
1836
1836
Em 1836, Catarina Maria vivia como pessoas livre há mais de 11 anos. Ela morava na rua do Príncipe do Valongo, no Rio de Janeiro, em companhia do preto Antonio de Carvalho, também liberto. Três anos antes do início do processo, Antonio e Catarina foram roubados; os ladrões levaram duas caixas com roupas, joias, sapatos e duas cartas de liberdade.
Ao saber que a carta de alforria de Catarina havia sido roubada, Marcelino Guedes de Amorim, irmão de seu falecido senhor, acusou-a de ser uma escrava fugida. Conseguiu que ela fosse presa, pagou sua fiança e tentou vendê-la.
Catarina então buscou a justiça e conseguiu um mandado para ser levada para um depósito público — de lá, iniciou o processo. Ela comprovou de várias maneiras a veracidade de sua história: anexou a cópia do testamento de seu senhor, incluiu testemunhas e anexou declaração do delegado confirmando o roubo das cartas de alforria.
Ainda assim, o juiz julgou o processo nulo por não ter havido “conciliação” entre Catarina Maria, africana liberta, e Marcelino Guedes de Amorim, que pretendia escravizá-la. Dois anos depois, o tribunal da Relação confirmou a sentença inicial. Não se conhece o destino de Catarina.
Assista ao comentário sobre a história de Catarina.
“Diz Catarina Maria, preta forra do Gentio de Angola nação Congo, que tendo dado a José Domingues a importância do valor em que era estimada para obter sua liberdade, a qual obteve e tem estado no gozo há mais de 11 anos, acontecendo que morando a Suplicante com o preto Antonio, forro, o qual sendo roubado (...), também levaram uma caixa da Suplicante onde estava sua carta de alforria.”
1843
1843
Em 1839, a parda Catarina, moradora da província do Espírito Santo, foi libertada por seus senhores, recebendo carta de liberdade com a condição de servir temporariamente aos seus senhores. Já liberta, trabalhando e vivendo sobre si, ela teve duas filhas, Eduvirges e Anna.
Com o falecimento dos antigos senhores de Catarina em 1843, Eduvirges e Anna foram arroladas como escravas no inventário. Foi neste momento que, ajudadas pela mãe, iniciaram uma ação de liberdade. A reação dos réus não tardou: como todos falassem do assunto, eles passaram a “atrozmente” espancá-las, e “até consta que as tem querido vender”.
As provas e os argumentos das duas eram, no entanto, irrefutáveis: tanto que um dos supostos senhores resolveu reconhecer o direito de Eduvirges, que foi imediatamente liberta. O processo de Anna, no entanto, continuou a correr, com a alegação dos supostos senhores de que Catarina só teria ficado livre depois do falecimento de seus senhores — e que Anna, portanto, teria nascido escrava. Mas o juiz concluiu o contrário, e Anna também obteve a liberdade. Os réus apelaram da sentença, e o processo subiu ao Tribunal da Relação, que decidiu pela liberdade de Anna, que ficou livre como de ventre livre havia nascido.
Assista ao comentário sobre a história de Eduvirges e Anna.
“Dizem Eduvirges e Anna, filhas da parda forra Catarina Maria Esteves, escrava que foi de Manoel José Esteves, e D. Angelica Ferreira do Espírito Santo, supostas escravas; (...) que gemendo elas por longo tempo debaixo do rigor do cativeiro, em poder de seus ditos supostos senhores, querem por este juízo, propor uma ação de libelo cível de liberdade.”
1837
1837
Em março de 1871, Cristina, africana, iniciou uma ação de liberdade contra Maria Rita de São José. Cristina alegava que era “africana livre”, termo utilizado na época para designar os africanos que chegaram ao Brasil depois da proibição do tráfico, tendo sido apreendidos por autoridades e levados para trabalhar em estabelecimentos públicos e privados por determinado período. Apesar da serem oficialmente livres, boa parte dos “africanos livres” que chegaram ao Brasil permaneceram escravizados por toda a vida.
Quando o navio escravagista que a transportava tentou aportar em Macaé, Cristina teria cerca de oito anos de idade. De lá, ela diz ter sido levada ao Rio de Janeiro e enviada para trabalhar em casa de família. A primeira ficava em Cherém, na freguesia do Pilar. Anos depois, ela passou a viver no Rio de Janeiro, onde trabalhava como quitandeira, pagando uma quantia fixa à sua suposta senhora.
Cristina argumentou haver chegado ao Brasil após 1831, data da proibição do tráfico de africanos escravizados, e que deveria ser libertada. Ela também argumentava que nunca foi arrolada como escrava em nenhum documento de sua suposta senhora. Diz também que sua irmã, a preta Eliziana, estaria na mesma situação.
Apesar de as testemunhas terem confirmado sua história, o juiz decidiu que não havia provas suficientes de que Cristina fosse “africana livre”. A sentença foi confirmada em 1875 pela Corte de Apelação. Ao tomar conhecimento do resultado, Cristina declarou à polícia que não voltaria para casa, nem teria o mesmo destino que Eliziana, que acabou vendida. E fugiu.
Assista ao comentário sobre a história de Cristina.
“Por artigos de ação sumária de liberdade, diz Cristina, de nação Conga, por seu curador, contra Maria Rita de São José, que se inculca sua senhora o seguinte: 1) porque a Autora é natural da Costa da África e nascida na nação Conga; 2) porque a Autora tem hoje a idade de 32 anos presumíveis, com bastante consciência calculada; 3) porque a Autora foi importada da Costa d’África para este Império do Brasil em época que já existia a proibição do tráfico de africanos, sendo apreendido o navio em que vinha a autora com outros muitos nos mares deste Império”.
1872
1872
Bonifácia tinha 20 anos, em 1872, quando iniciou a ação de liberdade contra Maria da Hora. Ela conta que sua suposta senhora a obrigou a viver na prostituição, assim como a Joana, Paulina, Maria, Felismina, Florisbela e outra Bonifácia.
Elas eram obrigadas a praticar “atos pouco sérios e ilícitos” na casa de sua senhora e em uma outra, que ela também possuía, nos fundos de um armazém.
Bonifácia argumentou que “grandes foram os lucros dados por ela à sua senhora durante o tempo que estava em sua casa, juntamente com ela, na prostituição”, e que por isso ela teria recebido a liberdade, assim como suas “companheiras de vida desregrada”. Mesmo contrariando as testemunhas, que confirmaram ser Bonifácia forçada a prostituir-se, Maria da Hora respondeu dizendo que a história não era verdadeira, e que Bonifácia era empregada no serviço doméstico.
O juiz não questionou a versão de Bonifácia. Enfatizando que “prostituição forçada não é causa legal para conferir liberdade”, decidiu que Bonifácia deveria permanecer em posse de Maria da Hora. Meses depois, o tribunal da Relação confirmou a decisão. E Bonifácia permaneceu escravizada, obrigada a prostituir-se.
Assista ao comentário sobre a história de Bonifácia.
“Diz a parda Bonifácia por seu curador que pretende citar Maria da Hora, sua ex-senhora, a fim de (...) propor uma ação sumária de liberdade (...): Que a suplicante pelo espaço de dois anos (...) viveu sempre na prostituição por ordem expressa e consentimento de sua ex-senhora, e que nesta vida gozou sempre de plena e inteira liberdade.”
1824
1824
Em novembro de 1874, a preta Marcolina, estando com tuberculose pulmonar em estado grave, solicita o arbitramento de seu valor para pagar por sua liberdade à sua senhora, Mariana da Cunha Vasconcelos de Araujo Vianna.
Na ocasião, ela deposita tudo o que tem: cem mil réis, dados por sua mãe, a africana livre Sabina.
Vários meses se passaram até que os três peritos atribuíssem um valor a Marcolina. Enquanto isso, sua senhora reclamou só haver até então recebido uma “quantia miserável”, e que Marcolina deveria voltar a seu poder, já que ela “não pode ser privada dos seus serviços sem motivo plausível”.
Os peritos discordaram quanto ao estado de Marcolina. O primeiro, considerando a gravidade de sua doença, avaliou-a em 200 mil réis. Os dois outros, em 400 mil réis. E foi o que a justiça estabeleceu: que Marcolina teria cinco dias, a partir da decisão, para depositar o restante de seu valor. O tribunal da Relação confirmou a decisão do juiz.
Marcolina não tinha 300 mil réis para pagar sua liberdade. Ela, que só desejava morrer livre, foi “obrigada a continuar no estado de escravidão em que se achava”.
Assista ao comentário sobre a história de Marcolina.
“Diz Marcolina, preta, filha de Sabina, africana livre, escrava de D. Mariana da Cunha Vasconcelos de Araújo Viana, atualmente em uma das enfermarias da Santa Casa de Misericórdia, onde está em tratamento (...) por sofrer de tuberculose pulmonar, (...) que desejando morrer em estado de liberdade e tendo de pecúlio, que lhe foi doado por sua mãe, a quantia de cem mil réis, vem requerer (...) que se digne mandado recolher aos cofres do tesouro o dito pecúlio, nomeando-lhe curador”.
1803
1803
A “preta crioula” Eva tinha vinte e cinco anos quando iniciou uma ação de liberdade contra Tereza Roza de Oliveira Passos, viúva de Manoel José d’Oliveira Passos, seu antigo senhor. Segundo Eva, Manoel declarava a todos que seus escravos ficariam livres após sua morte. Mas, ao falecer sem testamento, sua viúva se recusou a passar a carta de alforria para Eva e sua filha Maria, de 3 anos.
Eva havia sido comprada por Manoel em 1865, junto com sua mãe, Isabel, de nação Angola, à época com 38 anos. As duas eram conhecidas por saber lavar, engomar e cozinhar. Como era comum naquele tempo, Eva era alugada para outras pessoas, e sua suposta senhora recebia o valor dos aluguéis.
Em 1875, o juiz da ação considerou que Eva e Maria tinham direito à liberdade.
Tereza contestou, levando a ação até ao tribunal da relação. Mas, em 12 de maio de 1876, ela enviou o sobrinho à corte para desistir da ação, segundo ela por “conhecer direitos de Liberdade nas referidas pretas”.
Assista ao comentário sobre a história de Eva e Maria.
“Eva e sua filha menor de 3 anos tendo vivido em casa de seu senhor Manoel Jose d’Oliveira Passos; este declarou a muita gente que seus escravos por sua morte não serviriam a mais ninguém porque ficaram livres (...). acontece, porém, que faleceu o dito seu senhor há dois anos e sua senhora D. Tereza Roza de Oliveira Passos moradora à rua do Catete 46 continua a obrigar a Suplicante e suas parceiras a lhe prestar serviços como sua escrava até exigindo dízimos a título de dar a liberdade, por isso recorreu a V. Excia. (...) que passe mandado de manutenção de liberdade”.
Rio, 4 de fevereiro de 1875.
1803
1803
Adriana era trabalhadora da lavoura e tinha cerca de 38 anos quando iniciou a ação de liberdade contra seu suposto senhor João Batista Duarte e Castro.
Ela alegou ter sido abandonada em abril de 1880, sendo proibida por João Batista de entrar em sua casa, nem mesmo para visitar seus dois filhos pequenos, um deles neto do mesmo João Batista. Na ocasião, tendo pago 400 mil réis por sua liberdade, Adriana recebeu um recibo e a promessa de que sua carta de liberdade lhe seria entregue, no dia seguinte, no escritório do tabelião.
Como Adriana na época estivesse doente, tendo que “procurar asilo para se tratar”, não pode buscar a carta. Quando se restabeleceu, descobriu que João Batista não havia cumprido com o que prometera. E mais: segundo suas alegações, quando ela pediu para outra pessoa pegar a carta, ele tomou-lhe o recibo e nunca mais o devolveu. Em maio de 1882, ela foi surpreendida por um indivíduo chamado Gomes, que se dizia procurador de João Batista e exigiu mais 300 mil reis para lhe passar a carta de alforria. Ela se recusou e continuou tentando conseguir o documento a que tinha direito. Foi então que Adriana denunciou o procurador de João Batista e, em vez de receber a carta de alforria, acabou presa na Casa de Detenção.
Na casa de detenção, atribuíram-lhe um curador, que pediu que Adriana fosse solta da prisão em que se achava “pelo simples fato de ter tido o arrojo de pleitear por sua libertação”. Ele teve sucesso, ela foi solta em janeiro de 1883, e o processo seguiu, com inquirição de testemunhas e alegação de ambas as partes.
João Batista alegou que Adriana nunca havia sido abandonada e que havia sido seduzida para fugir, e o juiz julgou as alegações de Adriana insuficientes para lhe conferir a liberdade. Decidiu que ela deveria ser restituída a João Batista e que tinha o direito de, se quisesse, entrar com outro processo para pedir o arbitramento de seu valor. Adriana apelou da sentença, mas de nada adiantou: em 16 de outubro de 1883, a Corte de Apelação manteve a decisão, e Adriana permaneceu escravizada.
Assista ao comentário sobre a história de Adriana.
“Diz Adriana, preta, crioula, que estando forra, por ter contratado com o seu ex-senhor João Batista Duarte e Castro, morador à rua da Caixa d’Água número 1, em São Cristóvão, em princípios do ano de 1880, estando a Suplicante gravemente doente, conferiu-lhe carta de liberdade, mediante a quantia de 400 mil réis, importância esta que o Suplicado recebeu da Suplicante na referida data. Sucede, entretanto, que o referido Suplicado se recusou a dar-lhe o seu título de liberdade e abandonou a Suplicada desde essa época, a qual tem vivido nesta Cidade sobre si, tratando-se em suas enfermidades — o que tudo protesta provar na respectiva ação.”
1888
1888
A preta crioula Hermínia tinha vinte e poucos anos quando iniciou uma ação contra João da Costa Ferreira para demandar salários pelo tempo em que havia sido alugada por ele a outras pessoas para trabalhar no serviço doméstico. Segundo afirmou no processo, ela nascera livre e havia sido escravizada quando criança, raptada no Maranhão e trazida para ser vendida no Rio de Janeiro.
Comprada pelo negociante português Ferreira, Hermínia foi mantida em cativeiro ilegal de 1880 a1886, quando fugiu com sua filha pequena e encontrou alguém que lhe fizesse uma petição para iniciar uma ação de liberdade.
É muito provável que trabalhadores simpatizantes do abolicionismo a tenham auxiliado na fuga, no esconderijo e no início do processo. Tendo obtido sentença favorável à liberdade em 1886, ela reiniciou o processo dois anos depois para demandar a compensação pelo trabalho realizado durante o tempo em que trabalhava alugada para fora, e Ferreira recebia integralmente seus salários dos alugadores.
Vários trabalhadores, inclusive portugueses, testemunharam a favor de Hermínia. O negociante, entretanto, alegou que a havia comprado “de boa fé”, argumento largamente utilizado à época por proprietários escravistas. O juiz de primeira instância considerou que, apesar da obtenção da liberdade em processo anterior, Hermínia e seu advogado não haviam apresentado provas de que ela nascera livre. O processo teve seu fim apenas depois da Abolição, em 1890, quando desembargadores do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro negaram à Hermínia o direito à compensação por seus serviços.
Assista ao comentário sobre a história de Hermínia.
“Hermínia da Conceição requer a Vossa Excelência que se digne mandar citar a João da Costa Ferreira, morador à rua do General Pedra n. 31, para, na primeira audiência deste juízo, vir falar aos termos de um libelo cível, em que pretende lhe pedir o pagamento de 1:420.000, importância dos serviços que ele desfrutou da suplicante durante o tempo em que a teve em injusto cativeiro, como melhormente exporá nos seus artigos; ficando logo citado para demais termos da ação até final sentença, sob pena de revelia.
Rio de Janeiro, 02 de março de 1888.”
1888
1888
Claudina era brasileira, solteira, tinha 19 anos e trabalhava no serviço doméstico. Em maio de 1880, aos 12 anos, foi comprada e levada de Pernambuco para o Rio de Janeiro, onde vivia no sobrado número 8 da rua da Assembleia. Em 1887, foi avaliada em 675 mil reis.
Em 24 de janeiro de 1888, Claudina inicia uma ação de liberdade contra seus supostos senhores. Alegava não haver prova de ser escrava, “por não ser conhecida a fonte ou origem de sua escravidão”, uma vez que em seus registros consta que sua filiação era desconhecida.
Naquela época, como o comércio de africanos escravizados já estava proibido, uma pessoa só podia ser considerada escrava se fosse filha de uma mulher escravizada. “O nascimento é a única fonte da escravidão”, diziam os advogados, mas os supostos senhores de Claudina não tinham como provar sua filiação.
O juiz decidiu que, como faltava prova legal de seu nascimento, Claudina deveria ser libertada. Em março de 1888, seus supostos senhores, recusando-se a aceitar a realidade, apelaram da sentença, e o processo foi levado ao Tribunal da Relação do Rio de Janeiro. Não chegou a ser julgado pela Corte. No dia 5 de junho de 1888, o relator escreveu: “tendo sido extinta a escravidão no dia 13 de maio, nada há mais a decidir”.
Assista ao comentário sobre a história de Claudina.
“Diz a preta Claudina, de 19 anos de idade, suposta escrava de Manoel José da Rosa (...) que sendo a suplicante crioula, e como tal brasileira, e estando matriculada com a nota filiação desconhecida, requer e pede (...), em virtude da lei de 28 de setembro de 1871, que considera o indivíduo de ‘filiação desconhecida’ e nascido neste Império, que seja livre.”
A sociedade escravista brasileira gerou uma vasta documentação que evidencia as experiências das mulheres submetidas ao cativeiro. A seção a seguir revela a complexidade das condições por elas vivenciadas, bem como as múltiplas formas de resistência que marcaram suas trajetórias.
Cartas de liberdade de escravizadas povoam os livros de ofícios de notas do Rio de Janeiro. O que hoje nos assombra era rotina nos cartórios, fosse a carta de liberdade “da escrava Laudicena, preta crioula solteira de trinta anos de idade” ou o alvará de liberdade em favor “da preta Rita Maria da Conceição”.
Se o poder judiciário era uma arena de resistência para muitas, por outro lado, a sua escrita servia à perpetuação do regime, na caracterização daquelas mulheres, na voz de “senhores” e funcionários. A liberdade plena era difícil, instável, dependente da justiça e da política, como mostram os documentos sobre o processo de proibição do comércio atlântico de africanos escravizados. Uma guerra travada nos salões e em brigues, como o Asseiceira e o Camargo, que persistiram no tráfico ilegal de pessoas.
Associadas às nações e marcas que traziam no corpo, muitas africanas foram “emancipadas” em formulários impressos e padronizados, classificadas sob o dossiê “africanos livres” no Arquivo Nacional. Tais documentos dão conta da própria prática de organização dos arquivos, que estabeleceu, nas repartições do Império, a lógica necessária à ordem escravista.
Claudia Beatriz Heynemann
11 de junho de 1885
Carta de Liberdade de Laudicena conferida por Antonio Gomes Pinto.
13 de junho de 1885
Registro de Alvará de Liberdade passado a Rita Maria da Conceição. Registro de Alvará de Liberdade passado a Antonia.
13 de junho de 1885
Registro de carta de liberdade conferida a Efigênia, pelo valor de 200 mil réis, pagos por ela. Registro de Alvará de Liberdade conferida a Eva, em cumprimento da lei de 28 de setembro de 1871.
6 e 7 de abril de 1886
Registro de carta de liberdade conferida a Helena. Registro de carta de liberdade conferida a Luiza, dispensada de todo e qualquer serviço, que, na forma da lei de 28 de setembro de 1871, lhe devesse prestar. Registro de carta de liberdade conferida a Alta “pelos bons serviços prestados”.
26 e 30 de abril de 1866
Registro de carta de liberdade conferida a Calista, por duzentos mil réis, pagos por Cândida Fermina Neves Guimarães, a quem Calista prestaria serviços domésticos por dez meses. Registro de carta de liberdade a Lucinda, a título gratuito.
10 e 14 de outubro de 1886
Registro de carta de liberdade conferida a Maria, “como se de ventre livre houvesse nascido”. Registro de carta de liberdade conferida a Mariana “pelos bons serviços prestados”.
24 e 27 de dezembro de 1886
Registro de carta de liberdade conferida a Margarida “com a condição de prestar serviços” por sete anos. Registro de carta de liberdade conferida a Carolina, ambas “com a condição de prestar serviços” por sete anos.
Mulheres africanas ou afrodescendentes têm no retrato uma face visível, destacando-se a carte-de- visite, formato popular dos estúdios. Eram fotografias que atendiam à curiosidade estrangeira, ao interesse dito científico, aos álbuns da classe senhorial e, também, à causa da liberdade. No acervo da instituição, os poucos retratos de mulheres negras do século XIX são expressivos para a história da fotografia em arquivos públicos e tornam essas mulheres e seus retratos ainda mais significativos em sua singularidade poética.
Claudia Beatriz Heynemann
O retrato de Glicéria da Conceição Ferreira, liberta, evidencia uma autonomia na produção da sua autoimagem.
A cena montada sugere intimidade e afeto, mas o corpo tenso de Benvinda revela a violência que sustenta a imagem.
As duas mulheres se autorrepresentaram com roupas, penteados e adornos que afirmam respeitabilidade e liberdade.
A trajetória de Romana da Conceição atravessa a diáspora negra entre o Brasil e a Nigéria.
O retrato de Glicéria da Conceição Ferreira, liberta, evidencia uma autonomia na produção da sua autoimagem, condizente com a condição que ela intenta revelar.
Para tanto, tem papel fundamental a escolha da indumentária e dos elementos decorativos que compõem a fotografia: a sofisticada roupa de traços europeus, com suas cores escuras, babados, franjas, volumes e aplicações de flores, o leque em uma das mãos, as joias delicadas e a flor no cabelo, tudo evocando um evento especial, quem sabe, uma festa. O cenário, que emula a intimidade de um quarto, no qual se vê uma caixa de joias e o banquinho de apoio para os pés, contribui para distinguir Glicéria das mulheres negras escravizadas retratadas como “tipos” ou em diferentes situações de trabalho. Toda a composição da fotografia nos lembra que a imagem é registro e prova de que a resistência e a luta valiam a pena.
Maria do Carmo T. Rainho
A cena montada sugere intimidade e afeto. Benvinda, a ama de leite escravizada, segura uma criança nos braços. O corpo tenso de Benvinda e seu olhar fixo na criança revelam que o centro da fotografia é a bebê branca, e não a mulher negra que a sustenta.
A composição visual desta fotografia expõe uma tensão latente: onde estaria o filho de Benvinda? Teria falecido no parto ou foi separado da mãe ao nascer, para que pudesse aleitar outra criança?
Toda fotografia de ama de leite carrega consigo marcas de violência: a alienação forçada entre mãe e filho, a instrumentalização do corpo da mulher negra e a negação de seu direito à maternidade. Ainda que elaborada para representar um vínculo afetivo, a imagem, com igual força, retrata as estruturas racistas que sustentavam a sociedade escravista brasileira.
Mariana Muaze
As fotografias devem ser observadas sem pressa e com curiosidade. Quem tirou esta fotografia? Quem são estas mulheres? Pouco ou quase nada sabemos sobre este registro fotográfico, mas, mesmo assim, sua mise-en-scène nos leva a refletir sobre a sociedade que o produziu.
As duas mulheres negras da fotografia se autorrepresentaram com roupas de tafetá escuras, penteados sóbrios e adornos elegantes — como camafeus, colares, brincos e pulseiras —, além dos sapatos, fazendo questão de exibir tais atributos, geralmente utilizados por mulheres da classe senhorial para demarcar respeitabilidade e pertencimento ao mundo dos livres.
Em uma sociedade escravocrata, que procurava desqualificar cotidianamente mulheres negras, tal atitude não era ingênua e expressava tanto a adesão às convenções de gênero, raça e classe vigentes quanto um ato de resistência que borrava as fronteiras raciais e sociais impostas.
Mariana Muaze
Romana da Conceição, em 1963, aos 73 anos, em visita oficial ao Brasil.
Em 1899, a bordo do navio Aliança, sessenta africanos deixavam Salvador em um longo caminho de volta para Lagos, Nigéria. O último embarque de libertos e afrodescendentes no final do século XIX levava também algumas crianças, entre elas, Romana da Conceição.
Nascida em Pernambuco, Romana revelava em entrevista a Pierre Verger, em 1948, as saudades do Brasil — de suas comidas e festas — e a vontade de voltar ao país.
Em 1963, aos 73 anos, retorna em visita oficial. É recebida por João Goulart, vai à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro; circula por Salvador e Recife.
A despeito das celebrações em torno de sua vinda, a viagem de Romana não provocou reflexões em torno da diáspora negra no pós-abolição. Mas inspirou Antonio Olinto a escrever o ensaio Os brasileiros na África e o romance A casa da água.
Maria do Carmo T. Rainho
As cartas de emancipação de africanas livres que sobreviveram ao tempo são registros de histórias tristes. Elas foram emitidas pela Comissão Mista Anglo-Brasileira ou por juizados de órfãos quando as pessoas encontradas a bordo dos navios negreiros apreendidos foram formalmente emancipadas. Cada pessoa é identificada com um nome cristão (desconsiderando o anterior), a nação, as marcas do corpo e eventualmente uma descrição física. As africanas livres Romana Benguela, Agatha Unane e as demais faleceram prematuramente. Suas cartas estão aqui expostas porque foram devolvidas ao Ministério da Justiça, foram arquivadas e assim chegaram até nós.
Beatriz Mamigonian
Josefina
Isadora
Joana
Catharina
Agatha
Cecilia
Eleuteria
Lucrecia
Patricia
Rita
Romana
Navios escravagistas Asseiceira e Camargo
A bordo de navios, como o Asseiceira e o Camargo, vieram para o Brasil centenas de pessoas africanas ilegalmente escravizadas, incluindo muitas mulheres. Em 1839, o Asseiceira foi apreendido pelas autoridades, perseguido pela Marinha brasileira. Já o Camargo foi incendiado e naufragou em 1852.
Mesmo que, tecnicamente, as mulheres africanas nomeadas nestas listas fossem livres, as listas com seus nomes e as marcas corporais mostram várias dimensões da complexidade e crueldade do sistema escravista.
Relação de 322 africanos livres, chegados a bordo do brigue Asseiceira. A partir do n. 246, relação de mulheres. Rio de Janeiro, 13 de março de 1841. Diversos Códices. Arquivo Nacional.
Relação de 322 africanos livres, chegados a bordo do brigue Asseiceira. A partir do n. 246, relação de mulheres. Rio de Janeiro, 13 de março de 1841. Diversos Códices. Arquivo Nacional.
Relação de 322 africanos livres, chegados a bordo do brigue Asseiceira. A partir do n. 246, relação de mulheres. Rio de Janeiro, 13 de março de 1841. Diversos Códices. Arquivo Nacional.
Relação de 34 africanos livres, entre eles, Claudina, Domingas, Felícia, Antonia, Luiza, Bernarda e Thomazia, chegados a bordo do brigue Camargo. Rio de Janeiro, 12 de abril de 1853. Série Justiça, Arquivo Nacional.
Relação de 322 africanos livres, chegados a bordo do brigue Asseiceira. A partir do n. 246, relação de mulheres. Rio de Janeiro, 13 de março de 1841. Diversos Códices. Arquivo Nacional.
Relação de 322 africanos livres, chegados a bordo do brigue Asseiceira. A partir do n. 246, relação de mulheres. Rio de Janeiro, 13 de março de 1841. Diversos Códices. Arquivo Nacional.
Relação de 322 africanos livres, chegados a bordo do brigue Asseiceira. A partir do n. 246, relação de mulheres. Rio de Janeiro, 13 de março de 1841. Diversos Códices. Arquivo Nacional.
Relação de 34 africanos livres, entre eles, Claudina, Domingas, Felícia, Antonia, Luiza, Bernarda e Thomazia, chegados a bordo do brigue Camargo. Rio de Janeiro, 12 de abril de 1853. Série Justiça, Arquivo Nacional.
Em outubro de 2025, foram feitas duas rodas de conversa para apresentar as histórias das ações de liberdade às servidoras do Arquivo Nacional. Assista às reflexões de colaboradoras do projeto e servidoras do Arquivo Nacional sobre as trajetórias das mulheres retratadas na exposição. São relatos de mulheres do presente aprendendo com as mulheres do passado.
Laís Rocha
Thaina Garcia
Patrícia Conceição
Maria Elisa Bustamante
Raissa Sabiá
Flávia Silva
Letícia Pimentel
Marilena dos Santos
Christiane Alvarez
Nadja Parentes
Ana Lígia Mendonça
Rosane Coutinho